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Atos 13:13 52
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Atos 13.13 52: Em Antioquia da Pisídia 

 

Os missionários atravessam a Ásia Menor, onde o primeiro sermão de Paulo, de que se tem registro, foi pregado em Antioquia. O sermão é transcrito integralmente, de modo que em outras ocasiões Lucas só precisaria dizer que Paulo "proclamou a palavra de Deus nas sinagogas judaicas" (13:5; 14:1; etc.) sem sentir-se obrigado a registrar o conteúdo total de cada pregação. A semelhança da pregação, a reação dos ouvintes também segue um paradigma: alguns judeus crêem, mas muitos rejeitam o evangelho. É possível ver no padrão de ministério delineado nesta passagem um paralelismo entre Jesus e Paulo. Simeão havia anunciado que Jesus seria "luz para iluminar os gentios" (Lucas 2:32), e em Antioquia Paulo definiu sua tarefa nesses termos precisos (13:47). Ob­serve também "a similaridade ambiental entre o discurso inaugural de Jesus e o de Paulo (Lucas 4:16s.; Atos 13:14s.); a divisão que o sermão produziu, a referência aos gentios e a oposição. Tais paralelismos indi­cam que o ministério de Jesus prosseguiu no de Paulo, até mesmo que o ministério de Jesus é continuidade da história da salvação desde seus primórdios (13:17-23)" (Krodel, p. 54; veja também adisc. sobre 19:21-41).

Tem sido observado com freqüência que este sermão tem extraordi­nária semelhança com os sermões de Pedro, tanto no esboço como no conteúdo e, numa extensão menor, com o sermão de Estevão (todos contêm um resumo da história de Israel). Por causa desta ampla simila­ridade, a autenticidade de um ou de todos eles tem sido questionada, sendo tal semelhança atribuída inteiramente a Lucas. É certo que tais sermões trazem a marca de sua linguagem e estilo literário, mas é preciso que se duvide que Lucas os tenha criado e composto livremente. Acei­ta-se agora amplamente que toda a pregação primitiva seguia um padrão comum que até certo ponto se baseava em modelos rabínicos (veja a disc. sobre 2:14-42). Tais modelos, e a forma de pregação neles baseada, eram bem conhecidos de Paulo, que naturalmente os adotou. Apesar de tudo, o sermão paulino tem caráter próprio, com indícios de idéias próprias e com o vocabulário do apóstolo. A fonte de Lucas pode ter sido o próprio Paulo (este sermão é semelhante à maioria de seus sermões pregados em sinagogas), ou quem sabe Timóteo (cp. 16:1), que mais tarde haveria de ser companheiro de Lucas.

13:13-14a / De Chipre, o grupo missionário velejou para a Panfília, na costa centro-sul da Ásia Menor (cp. 2:10). Tratava-se de uma região na maior parte baixa, pantanosa e infestada de febres, embora em alguns pontos os montes do Touro, que tornavam difícil a viagem para o norte, estendiam-se até o mar. Politicamente falando, Panfília nunca teve grande importância e, em geral, para propósitos administrativos, era conjugada com uma ou outra das províncias adjacentes (Lícia e Galácia). Depois de uma jornada de cerca de duzentos quilômetros, chegaram à baía de Atália. Daí (nenhuma menção se faz de Atália como porto intermediário) teriam seguido direto para Cestro, a um porto que dava fácil acesso à capital, Perge (veja ainda a disc. sobre 14:25). Foi aqui que Marcos os abandonou e voltou para casa. Nenhuma razão é dada, mas muitas têm sido propostas: ressentimento contra Paulo, pelo fato de este tomar precedência sobre Barnabé; desacordo com respeito à política concernente aos gentios; ou quanto até que ponto geográfico eles deve­riam penetrar em terras gentílicas; ou simplesmente saudades de casa. Seja qual for a razão (a amizade de Lucas para com Marcos, mais tarde, impediu que o escritor nos desse um relato completo), Paulo não tratou da questão com bondade (veja ainda a disc. sobre 15:38).

Atos não dá nenhuma indicação de alguma pregação de Paulo nesta época. É claro que precisamos ter em mente sempre a natureza sintética desta narrativa. Todavia, se de fato os missionários não permaneceram ali, têm-se suposto que Paulo teria ficado doente, razão por que se dirigiram às pressas para o continente em busca de um clima melhor. Ramsay infere de Gálatas 4:13 que Paulo pegou malária (aquelas costas litorâneas eram famigeradas por causa dessa doença), sendo essa circuns­tância também o "espinho na carne" de 2 Coríntios 12:7(Paulo, p. 94ss.). Entretanto, deve-se questionar a hipótese de um homem doente poder enfrentar os rigores da travessia dos montes do Touro. Deve haver uma razão melhor pela qual deixaram para traz Perge: não existe evidências (nem literárias nem arqueológicas) de uma sinagoga nessa cidade; os missionários ainda não haviam pensado em iniciar uma aproximação direta aos gentios.

A intenção deles poderia ter sido, ao viajar para o norte, alcançar a estrada de Éfeso que atravessava Antioquia da Pisídia, e regressar por ela à Síria. O fato é que encetaram o caminho para cima, pelos montes da Pisídia, até Antioquia. Quando Paulo, posteriormente, viesse a escre­ver de perigos de rios (enchentes), de assaltantes (2 Coríntios 11:26), nenhuma outra viagem poderia, talvez, encher-lhe a memória mais do que esta. As enchentes das planícies da Pisídia são mencionadas por Estrabo, que escreveu a respeito dos rios Cestro e Eurimedo, que se precipitam de grandes alturas aos precipícios, a caminho do mar de Panfília; além disso, os romanos estavam longe de suprimir os clãs selvagens de ladrões pisídios que faziam daquelas montanhas seu escon­derijo.

Antioquia jazia nas encostas mais baixas da montanha hoje conhecida pelo nome de Sultão Dagh, e às margens do rio Antio — uma posição de comando bem protegida por defesas naturais, como era necessário, visto que nos dias primitivos essa região havia sido as fronteiras da Pisídia e da Frígia, sendo Antioquia uma cidade frígia (Estrabo, Geogra­fia 12.557). Mais tarde, quando tais áreas deixaram de ter importância política, quando a província romana da Galácia passou a abranger as antigas divisões, a expressão "Antioquia da Pisídia" (ou "Antioquia pisídia", como alguns manuscritos trazem) passou a ser usada. Ela fazia distinção de outra Antioquia frígia, às margens do rio Meander. Fica bem claro de 14:24 que Lucas estava ciente de que a "Antioquia da Pisídia" não ficava, estritamente falando, na Pisídia, mas na Frígia. Era uma dentre várias cidades com esse nome, fundadas por Seleuco I Nicator (veja a disc. sobre 11:19). Após a derrota de Antíoco III pelos romanos em 188 a.C, ela foi declarada cidade livre, e em 36 a.C. foi dada por Antônio a Amintas, da Galácia. A morte deste, em 25 a.C, a cidade foi incorporada à província romana da Galácia e, ao mesmo tempo, tornou-se colônia (Colônia Cesaréia, embora o antigo nome fosse retido no uso popular; quanto a colônias, veja a nota sobre 16:12). Pelos cem anos seguintes, foi o centro dos esforços romanos contra os ladrões escondidos nas montanhas.

Durante o reinado de Cláudio (41-54 d.C), em que Paulo e Barnabé chegaram à cidade, Antioquia havia alcançado seu maior nível de im­portância. Foi durante esse período que se deu o início da romanização tanto da cidade como de toda a região. Construíram-se novas estradas que partiam da cidade indo para o sudoeste e sudeste. Esta veio a tornar-se um elo de ligação, num contorno da estrada ao sul, entre Éfeso e o oriente. Tais estradas tinham o objetivo principal de atender ao exército e seus propósitos militares, mas logo estariam sendo usadas com o fim de evangelizar: "E a palavra do Senhor se divulgava por toda aquela região" (v. 49). A população de Antioquia era mista, composta princi­palmente de romanos, gregos e frígios. Todavia, os reis selêucidas haviam estabelecido muitos judeus nessa área, de modo que, à semelhan­ça da maioria das grandes cidades da Ásia Menor, Antioquia também tinha sua comunidade judaica.

13:14b-20a / Paulo e Barnabé entrando na sinagoga, num dia de sábado, assentaram-se (v. 14). É provável que este não fosse o primeiro sábado deles em Antioquia, de modo que já seriam conhecidos dos oficiais, por esta altura, embora não fosse impossível que os estranhos fossem convidados a falar (em geral a sinagoga tinha apenas um "ofi­cial", mas sabe-se de casos em que havia mais de um). O caso é que foram convidados a falar ao povo (v. 15; cp. Lucas 4:16-30). Tão logo as Escrituras foram lidas, Paulo levantou-se para aceitar o convite (o costume na Palestina era o de sentar-se, cp. Lucas 4:20; mas aqui, aparentemente, o costume era diferente: o palestrante falava de pé). O gesto com a mão era costumeiro com que o orador chamava a atenção da congregação (v. 16; cp. 12:17; 19:33; 21:40; 26:1). O auditório nesta ocasião incluía tanto judeus como gentios tementes a Deus, isto é, gentios interessados (veja a nota sobre 6:5). Paulo se dirigiu aos judeus em particular, a quem chamou de "israelitas" (veja a nota sobre 1:16), como o povo detentor da história de Israel que ele estava prestes a delinear. Seu propósito em parte era apelar ao orgulho nacional, pelo que o apóstolo se referiu à eleição de Israel — Deus havia escolhido "este povo de Israel"(v. 17) — e como Deus fê-lo prosperar (lit, "exaltou-o", isto é, levantou-os do nada para tornar-se grande em número e força; cp. Êxodo 1:7, 9) na terra do Egito. Ele os trouxe do Egito com braço poderoso (c. 17, lit., "com seu braço"; cp. "a tua mão", 4:28) e, se aceitarmos a linguagem variante do v. 18, o Senhor "levou-os pelo deserto como um pai a seus filhos", que se enquadra melhor no tom do discurso de Paulo, em vez do texto adotado por ECA e outras versões (o texto variante difere em uma única letra no original). Assim foi que Deus os trouxe a Canaã, onde "destruiu" (cp. Lucas 1:52, "depôs") as sete nações que estavam na terra (Deuteronômio 7:1) e entregou-a a seu povo por quase quatrocentos e cinqüenta anos (v. 20). Este número aparentemente foi calculado a partir do final da era patriarcal — quatrocentos anos no Egito (cp. 7:6), quarenta anos no deserto, e dez anos na conquista de Canaã. Observe-se que Paulo considerava a terra como pertencente de fato aos judeus, muito antes de eles tomarem posse dela, porque "fiel é aquele que fez a promessa" (Hebreus 10:23).

13:20b-23 / Deus atendera às necessidades de seu povo dando-lhe juizes e, nos dias de Samuel, quando o povo pediu um rei, deu-lhes por quarenta anos a Saul (v. 21). Este período de reinado de Saul não é mencionado no Antigo Testamento, mas Josefo declara expressamente que foram quarenta anos (Antigüidades 6.378, mas cp. 10.143), e isto não deixa de ser razoável, desde que Isbosete tinha quarenta anos de idade quando sucedeu a seu pai (2 Samuel 2:10). Saul em geral não entra nestas pesquisas históricas. A menção de Saul, portanto, pode ser reflexo do interesse pessoal do pregador por um rei cujo nome lhe fora dado, pertencendo ambos à mesma tribo (cp. Fp 3:5). Entretanto, Paulo volta aos trilhos da história, fazendo-a culminar em Davi. A importância de Davi estava em sua prefiguração do Messias, fato que Paulo salientou (com efeito) mediante uma citação combinada do Salmo 89:20, Achei a Davi; 1 Samuel 13:14, homem segundo o meu coração; e possivelmen­te Isaías 44:28, [ele] executará toda a minha vontade (eis uma descri­ção original de Ciro, que ali é chamado de "messias"). Todavia, esta atribuição identificadora tem sido questionada por M. Wilcox, que argumenta que tais palavras não são de Isaías, de modo algum, mas do Targum de 1 Samuel 13:14, que substitui a frase "um homem segundo o seu coração", encontrada tanto no MT como na LXX por palavras que poderiam ser traduzidas "um homem que faz [ou fará] sua vontade" (pp. 21 ss.). Se Wilcox estiver certo, seria possível que a citação houvesse sido feita por alguém familiarizado com a versão aramaica, embora o sermão fosse pregado em grego.

Davi era um tipo do Messias, e, mais ainda, era progenitor do Messias, como Deus dissera. A promessa havia sido que uma linha de reis de sua própria casa sucederia a Davi (2 Samuel 7:12-16; etc; veja a disc. sobre 2:30). Entretanto, Paulo, à semelhança de Pedro, interpretou o singular como referindo-se a um rei em particular, Jesus, a quem ele chamou de Salvador de Israel (v. 23). Aqui também Paulo seguiu a Pedro no uso desse título (veja a disc. sobre 5:31), embora neste caso possa ter sido sugerido pelo Salmo 89, que fala de Deus como "meu Deus, a rocha da minha salvação" (Salmo 89:26). Seja como for, esse salmo nos faz lembrar que, embora os libertadores humanos sejam às vezes chamados de salvadores (cp., p.e., Juizes 3:9, 15), esse título pertence de modo especial a Deus. Com toda certeza foi nesse sentido divino que Paulo empregou tal título (Salvador) para Jesus.

13:24-25 / Todavia, antes de Jesus houve João Batista (cp. 1:22; 10:37). Sem dúvida, algo do ministério do Batista era conhecido em Antioquia, mas o pregador rememorou seus pontos salientes, mencio­nando o chamado que João fizera ao povo a que se desviasse de seus pecados e recebesse o "batismo de arrependimento" que acompanhou seu chamado (veja a disc. sobre 19:4). Mas, de modo especial, Paulo se referiu ao Batista como uma testemunha. João Batista havia negado com firmeza ser aquele que estava por vir (cp. João 1:20, 26s.; 3:27ss.), mas, em vez disso, apresentou Jesus ao povo. Agora, Paulo fazia o mesmo.

13:26-31 / A segunda metade do sermão é prefaciado por um tipo mais pessoal de discurso. Paulo chama os habitantes de Antioquia de irmãos. Como antes, o apóstolo faz distinção entre judeus e gentios, embora ambos os grupos possam ser incluídos no vocativo "irmãos" (lit., ho­mens, irmãos; veja a nota sobre 1:16). É certo que a ambos os grupos se anunciou a salvação: "a vós é enviada a palavra desta salvação" (isto é, a salvação anunciada pelo Batista (v. 26). No grego temos "a vós é enviada a palavra", referindo-se talvez ao fato de ela ter saído de Jerusa­lém, o lugar onde fora proclamada pela primeira vez, embora possa significar que tenha partido de Deus, seu Autor (cp. Gálatas 4:4, 6). Podemos captar a nota de espanto que tal pudesse acontecer na própria geração daqueles homens (cp. 2:29; 3:25). Todavia, há um lado sombrio nesta história. O Salvador havia sido morto em Jerusalém. Novamente Paulo, à semelhança de Pedro (3:17), por um lado oferece alguma expiação da culpa por esse crime, pelo fato de o povo que morava em Jerusalém, e até seus líderes, não terem conhecido a Jesus como o Salvador, e tampouco terem entendido as vozes dos profetas (v. 27; cp. 14:16; 17:30; João 8:19; 1 Coríntios 2:8; 1 Timóteo 1:13). Por outro lado, todavia, o v. 28 deixa bem claro que Paulo não só não os discrimina de todo, mas suas palavras carregam uma nota de advertência. Os habitantes de Antioquia não deveriam fazer como os de Jerusalém, que embora não achassem nenhuma causa de morte, uniram-se todavia a fim de sentenciar Jesus à morte (v. 28; cp. a linguagem semelhante usada por Pilatos, Lucas 23:22). Observe como é insignificante a referência que Paulo faz ao papel desempenhado pelos romanos nessa armação. (Lembre-se de que Anti-oquia era uma colônia romana! Mas veja também, na Introdução, os propósitos de Lucas ao escrever.) Toda a culpa, segundo Paulo, cabia aos judeus.

A última oração do v. 29 parece indicar que os mesmos líderes judaicos que sentenciaram Jesus à morte tirou-o também da cruz (tiran-do-o do madeiro, veja a disc. sobre 5:30; cp. Gálatas 3:13; o puseram na sepultura). Este texto, tomado de modo literal, concorda com o evangelho apócrifo de Pedro 6:21-24, embora saibamos, pelos evange­lhos canônicos, que foram seus amigos, e não seus inimigos, que lhe prestaram esse último serviço. Entretanto, dois desses amigos eram membros do Sinédrio (Lucas 23:50s.; João 7:50ss.; 19:38ss.). Seria isso que Paulo tinha em mente? Certamente o apóstolo conhecia muito mais do que os fatos crus da narrativa da paixão (cp., p.e. 1 Coríntios 11:23), e poderia estar ciente de todas essas minúcias. Ou estaria Paulo falando apenas em termos genéricos? Seja como for, o ponto mais importante é que ao sentenciar Jesus à morte, aquelas pessoas sem o saber haviam cumprido todas as coisas que dele estavam escritas (v. 29; cp. 2:23; quanto a textos escriturísticos específicos, veja 4:11 e 8:32s.). Todavia, Deus o ressuscitou dentre os mortos — eis o contraste entre o ódio humano contra Jesus e sua exaltação por Deus (v. 30; cp. 2:24. 32; 3:15; 4:10; 5:30s.; 10:40). A ressurreição podia ser comprovada, visto que Jesus havia aparecido ("por muitos dias, foi visto"; veja a nota sobre 4:10) aos seus seguidores (v. 31). Tratava-se das mesmas pessoas que subiram com ele da Galiléia para Jerusalém e estavam, portanto, muito bem qualificadas para serem testemunhas do Senhor, como ha­viam sido até esse dia (v. 31; cp. 10:39-42). Paulo não menciona a ascensão, mas esta fica implícita no fato de Jesus não estar mais presente para que as pessoas pudessem vê-lo.

13:32-37 / Tampouco Paulo diz algo sobre a aparição de Jesus a ele, talvez porque as circunstâncias fossem diferentes, e o apóstolo não havia seguido a Jesus como os outros, nem o vira morrer. Assim, em vez de incluir-se entre as testemunhas, Paulo se apresenta como evangelista (v. 32; cp. 1 Coríntios 15:11). As Boas Novas diziam respeito ao Messias que Deus havia prometido a seus pais e que havia enviado agora (cp. 26:6; Romanos 15:8). A mensagem era dirigida de modo especial aos judeus — a nós, seus filhos (isto é, a nossos ancestrais e a nós)—embora Paulo tenha talvez intencionado incluir os gentios que adoravam a Deus, considerando-os "descendentes espirituais" de Abraão (cp. Romanos 4:11). O ponto focai das Boas Novas era a ressurreição de Jesus, em relação a qual Paulo citou as palavras do segundo salmo. Quanto ao uso deste salmo como testemunho, veja a disc. sobre 4:26. A guisa de comentário deste salmo, duas outras passagens são apresentadas: Isaías 55:3 (ligeiramente modificada) e o Salmo 16:10, que Paulo apresenta, declarando que ao ressuscitar a Jesus a intenção de Deus quanto a seu Filho era para nunca mais tornar à corrupção (v. 34). Esta linguagem antecipa a do salmo, no versículo seguinte. O propósito do pregador ao citar estas passagens era mostrar que muitas bênçãos haviam fluído a outros mediante a ressurreição (as santas e fiéis bênçãos de Davi vos [plural] darei, v. 34; veja a disc. sobre 4:2). Todas as citações são tiradas da LXX (de qualquer modo Paulo estava pregando em grego), o que explica a conexão existente entre Isaías 55:3 e o Salmo 16:10. A palavra traduzida por santas na citação de Isaías (v. 34, lit, "as coisas santas") reaparece na citação do salmo como santo (Jesus, v. 35). Assim é que ambos os versículos estão ligados por palavras que lhes são comuns. A seguir, então, esta coincidência passa a expressar o relacionamento de causa e efeito entre ambos os versículos. O v. 35 inicia-se com uma conjunção causai (gr., dioti), pela qual se espera que o leitor entenda que as bênçãos prometidas por Deus a Davi foram dispensadas a outros "por causa da" ressurreição. Noutras palavras, a ressurreição de Jesus é uma garantia de que o reino de Deus chegou, trazendo em seu bojo o perdão e a restauração de todas as coisas. Se um sinal de menor categoria foi considerado por Jesus como sinal de perdão (Marcos 2:10), o milagre superlativamente grandioso da ressurreição é sinal dessa bênção. Quanto ao uso cristão do salmo 16, veja a discussão sobre 2:29-31. Á exegese de Paulo e as pressuposições em que se baseiam são exatamente as de Pedro. Todavia, Paulo acrescenta algo dele mesmo. Nos versículos 36 e 37 ele contrasta as realizações de Davi, limitadas à sua própria geração, com as realizações de Jesus, que permanece para sempre, visto que aquele a quem Deus ressuscitou nenhuma corrupção viu (v. 37, outro eco do Salmo 16:10; quanto à construção gramatical "a quem Deus ressuscitou", veja a nota sobre 4:10).

13:38-39 / Paulo de novo chama seu auditório de irmãos (cp. v. 26), e declara sem sombra de equívoco que o perdão de pecados se faz mediante Jesus (v. 38; cp. 2:38; 3:19; 5:31; 10:43; 26:18), eque tal perdão está à disposição de todo aquele que crê nele (v. 39). A preposição grega en com o verbo "crer" dá o sentido de "descansar em", isto é, de confiar na pessoa em quem se crê — neste caso, Jesus. (Veja também a disc. sobre 9:42 e 10:43.) Neste ponto temos outra expressão paulina típica, que é o verbo "justificar" (v. 39), o modo preferido de o apóstolo exprimir a idéia de perdão. Entretanto, há uma dificuldade em seu uso nesta passagem. À primeira vista, este versículo parece dar a entender que, dentro de certos limites, a saber, desde que a lei de Moisés seja obedecida, tal lei pode prover a base da justificação. Seria como se a obra de Cristo se limitasse a cobrir o déficit aberto pela desobediência do homem face à expectativa de Deus. Aqui está uma compreensão diferente, tanto da lei como da obra de Cristo, bem diferente da que se encontra nas epístolas paulinas (cp., p.e., 2 Coríntios 3:9; Gálatas 2:16, 20). Entretanto, a diferença entre esta passagem e as das epístolas é mais aparente que real. A expressão "todo aquele" do v. 39 inclui os gentios (ou pelo menos assim parece), sem nenhuma referência a terem que guardar a lei, pelo que, concluímos, este versículo afirma, ao lado das epístolas, a plena suficiência da obra de Cristo.

Outra dificuldade, novamente frente a escritos posteriores de Paulo (cp. Romanos 3:23-26; 5:5ss.; mas cp. também Romanos 4:25; 8:34; 2 Coríntios 5:15), é que a justificação não fica especificamente conectada neste versículo à morte de Jesus, mas com seu caráter messiânico integral (de que sua morte, todavia, era parte; cp. vv. 26-29). Entretanto, dirigin­do-se a um auditório judeu, era preciso primeiro que se estabelecesse que Jesus era o Messias. A chave disto estava na ressurreição, pelo que essa é a ênfase não apenas deste sermão, mas de toda a pregação de Atos. Só mediante a aceitação por parte dos judeus da messianidade de Jesus é que eles entenderiam o fato e o modo da morte do Messias. Para a maioria, entretanto, sua crucificação continuava a ser um obstáculo insuperável na aceitação de Jesus como o Messias (cp. 1 Coríntios 1:23; Gálatas 6:12, 14).

13:40-41 / O sermão encerrou-se com um apelo ao despertamento de todas as consciências (cp. 2:40; 3:23; 17:31). Paulo havia falado de "todo aquele que crê" (v. 39). Agora ele emite uma advertência a todos quantos não crêem, a qual se expressa nos termos de Habacuque 1:5, em que o profeta alerta para a falha do povo em reconhecer o que estava aconte­cendo em seus dias (a ascensão de Babilônia) como ato de Deus. De modo semelhante, Deus esteve envolvido no evento de Jesus, e deixar de reconhecê-lo era o mesmo que convidar o desastre. De novo a citação é da LXX, que traduzia o texto hebraico "vede entre as nações" de outro modo: vede, ó desprezadores! (v. 41) que se enquadrava melhor nos propósitos de Paulo, bem como as palavras adicionais, espantai-vos e desaparecei, as quais é possível inferir do texto, mas não estão explícitas no hebraico.

13:42-43 / Paulo e Barnabé despertaram o interesse do povo. Iam saindo da sinagoga, e o povo rogou que no sábado seguinte lhes dissessem as mesmas coisas (v. 42). Não ficou claro no grego quem fez o convite. Pode ter sido o povo, ou mesmo os oficiais; o assunto não é mencionado. Tampouco fica determinado que seria no próximo sábado, embora o sentido mais provável seja esse. O texto grego tem uma expressão que poderia significar que aqueles homens estavam sendo convidados para falar "entre sábados", ou seja, durante a semana. Numa época posterior, o costume era ler-se uma porção da lei na sinagoga às "segundas" e às "quintas". Se tal hábito já estivesse vigorando na Antioquia da Pisídia, o convite poderia ter sido para uma dessas reuniões (cp. 17:11). O v. 44 não elimina esta possibilidade. Entretanto, algumas pessoas não podiam esperar e seguiram os missionários depois desta reunião, a fim de ouvir mais um pouco naquele momento. Incluíam-se judeus e gentios convertidos (veja a nota sobre 6:5, a respeito de serem chamados de prosélitos devotos). Paulo e Barnabé exortavam tais pes­soas a que permanecessem na graça de Deus (v. 43; cp. 11:23). Significaria isto que eles já estavam persuadidos de que Jesus era o Messias? Isto faz sentido, embora pudesse significar que haviam conhe­cido um pouco a respeito da graça de Deus (digamos, mediante a história de seu povo), deviam agora vir a crer em Jesus como a última e maior expressão dessa graça. A graça era um tema favorito de Paulo (cp. 14:3; 20:24, 32).

13:44-48/As notícias do novo ensino espalharam-se por toda a cidade, graças, sem dúvida, aos gentios que haviam ouvido Paulo na sinagoga, e no sábado seguinte reuniu-se quase toda a cidade para ouvir a palavra de Deus (v. 44). Esse fluxo de multidões encheu os judeus de inveja (v. 45). Isto poderia significar que ressentiam-se do sucesso dos missionários. Um significado mais provável, no entanto, seria que sen­tiram ciúme de sua posição privilegiada (cp. v. 17). Subiram à tona todas as animosidades entranhadas. Os judeus simplesmente não podiam acei­tar um ensino religioso que conduzia a tão grande abertura. Podiam aceitar uma mensagem como vinda de Deus para eles mesmos e seus prosélitos, e tolerar uma pequena mudança em seus ensinos e práticas, mas de modo algum poderiam suportar que os gentios passassem a ocupar a mesma posição do antigo povo de Deus. Assim, "blasfemando, contradiziam o que Paulo falava (v. 45: "falavam contra o que Paulo estava dizendo e insultavam", diz o grego; cp. 18:6). Não ficou declarado a quem insultavam, ou contra quem blasfemavam. Talvez fosse Paulo o alvo, ou seus ensinos; quem sabe negavam que Jesus fosse o Cristo (veja a disc. sobre os vv. 38s.).

Por outro lado, os gentios estavam entusiasmados sobre o que haviam ouvido (v. 48), o que pareceu tirar toda dúvida da mente dos dois missionários de que os gentios estavam nos planos de Deus para que "resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo" (2 Coríntios 4:4). Israel havia sido chamado para levar tal luz aos povos, mas Israel, representado por aquela sinagoga na Antioquia da Pisídia, havia rejeitado esse papel (o mesmo verbo, "rejeitar", encontra-se aqui e em Romanos 11:1, 2), pelo que essa tarefa havia passado à igreja. Tal percepção se expressa em termos de Isaías 49:6 (ligeiramente abreviado), tirado do segundo cântico do Servo. O significado original de Servo é incerto, mas a mais antiga interpretação é que representa Israel, havendo evidências literárias disso (veja a disc. sobre 8:32-35, e também a nota sobre 3:13). Esta é a interpretação adotada por Paulo, com a diferença que ele a aplica à igreja. A igreja deve ser luz dos gentios (v. 47). Que aquele cântico do Servo deva ser interpretado assim, e o outro, o último, como referindo-se ao Messias (veja a disc. sobre 8:32-35 e as notas), pode parecer esquisito, mas o intérprete judeu (e o cristão) não sentiu nenhuma necessidade de ser coerente na interpretação das Escrituras.

Foi necessário, Paulo e Barnabé declararam, que a palavra de Deus fosse pregada primeiro aos judeus (v. 46), porque a promessa havia sido feita primeiramente a eles; de qualquer modo, esse havia sido o padrão estabelecido por Jesus (Mateus 10:5; Atos 1:8; cp. Romanos 1:16; 2:9s.; 11:11). Entretanto, os judeus haviam perdido sua posição privilegiada (cp. Mateus 22:8). De fato, haviam passado julgamento sobre si próprios, ao desviar-se do caminho da vida eterna (a vida da era vindoura, isto é, o reino de Deus; veja as notas sobre 1:3 e 2:17). A partir de agora a palavra de Deus seria pregada aos gentios. Este ponto é repetido com grande ênfase no final do livro, em 28:25-28 (cp. Efésios 2:11-22). Barnabé concordou com Paulo e ambos falaram desse assunto usando de ousadia (v. 46), frente à evidente hostilidade do auditório (veja a disc. sobre 4:13). Este era um passo decisivo na nova direção em que Deus conduzia sua igreja; para Paulo representava talvez seu amadurecimento como apóstolo aos gentios. Fora-lhe dito logo de início que ele tornaria Deus conhecido dos gentios (9:15), e esses acontecimentos em Antioquia marcam-no de modo definitivo para esse papel. Entretanto, a comissão de Paulo havia incluído também a pregação ao povo de Israel, e em seu coração firmou-se o desejo ardente de que todo o Israel se salvasse (Romanos 9:1-3; 10:1). Jamais Paulo deixou de identificar-se com os judeus. Sempre, em todos os lugares aonde fosse, primeiro ele se dirigia aos judeus; quando uma sinagoga o expulsava ele se dirigia a outra (cp. 18:6; 19:9). Todavia, nenhuma dúvida restara de que Paulo devia pregar aos gentios também. Nessa ocasião houve uma excelente reação da parte dos gentios (talvez fossem "devotos tementes a Deus" em sua maior parte), e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna (v. 48). A idéia de destinação não traz um sentido restritivo. O pensamento não é que Deus havia limitado a salvação a uns poucos, mas que ele a estendera a muitos, contrastando com o exclusivismo judaico. E claro que esta escolha divina não descarta a necessidade da fé pessoal. Na verdade, alguns entendem que o verbo está na voz média, e não na passiva, e traduzem o texto assim: "e tantos quantos destinaram-se a si mesmos [mediante sua reação positiva aos apelos do Espírito] para a vida eterna, creram".

13:49-52 / Sendo uma colônia romana, Antioquia seria o centro administrativo natural da regio chamada Frígia (cp. 14:6; 16:6; 18:23 quanto a outras regiões dentro da província; veja Ramsay, Paulo, pp. 102-4, 109-12, e a disc. sobre 16:12 quanto a regiones da Macedônia), e a estratégia (se havia tal coisa) de implantar a igreja num centro assim foi extremamente bem sucedida, visto que a palavra do Senhor se divulgava por toda aquela região, isto é, o número de crentes aumentava. Vendo isto, os judeus puseram-se a fomentar uma oposição mais abrangente ao incitar e recrutar algumas mulheres devotas, de alta posição, e os principais da cidade (v. 50). Na Frígia, as mulheres gozavam de prestígio considerável e às vezes chegavam a ocupar cargos administrativos. Entretanto, tais mulheres também eram "devotas" das sinagogas, e talvez tenha sido por seu intermédio que "os principais da cidade", possivelmente seus maridos, entraram na questão. (Quanto a uma situação e influência semelhantes gozadas pelas mulheres macedônias, veja a nota sobre 16:13. Quanto à atração que as mulheres sentiam pelo judaísmo, veja Josefo, Guerra 2.559-561; Estrabo, Geografia 7.2, e Juvenal, Sátiras 6.542). O resultado foi que levantaram perseguição contra Paulo e Barnabé, e os lançaram fora da sua região (v. 50). "O mundo não fica passivo quando sofre o assalto que Deus lhe promove, mas reage fortemente à sua própria maneira" (Krodel, p. 53). Em vista da determinação do ato praticado por esses homens, não seria improvável que entre esses principais da cidade estivessem os magistrados, os duumviri. Podemos ter certeza de que a legislação romana prevalecia na Antioquia (como também em Listra e talvez em Icônio; veja as disc. sobre 14:1-7 e 8-20). De acordo com tal prática jurídica, e no interesse da paz e boa ordem, os magistrados podiam impor um exílio temporário (embora não fosse possível, de forma sumária, no caso de um cidadão romano, mas parece que Paulo não fez valer seus direitos). Os magistra­dos em geral eram nomeados uma vez por ano, pelo que seria tolice regressar de tal exílio pelo menos até o magistrado que o havia determi­nado concluir seu mandato anual.

Os missionários reagiram a esse tratamento desempenhando um ato que teria grande significado, pelo menos para os judeus — sacudindo, porém, contra eles o pó dos seus pés, partiram para Icônio (v. 51). Os judeus rigorosos praticavam esse ato simbólico ao entrar na Terra Santa, ao chegarem de longe, para que a terra não ficasse contaminada pelo pó de lugares profanos. Ao fazê-lo agora contra os judeus da Antioquia da Pisídia, declaravam com efeito que aqueles homens não eram melhores do que os pagãos que moravam entre eles; eram profanos, haviam deixado de fazer parte do verdadeiro Israel (cp. 18:6; 22:22s; Neemias 5:13; Lucas 9:5; 10:11). Em vista disso, Paulo e Barnabé tomaram a estrada na direção sudeste que os levaria a Icônio, cerca de 160 quilômetros de distância. Entretanto, o destino deles não gelou o entusiasmo dos discípulos que deixaram para trás. Como ocorre com freqüência, Lucas encerra seu relato com uma nota de alegria (veja a disc. sobre 3:8), mas no v. 52, não existindo outro exemplo melhor, Lucas explicitamente associa essa alegria a seu autor, o Espírito Santo. Ele também menciona a base do regozijo. É dupla: a inclusão dos gentios na bênção da vida eterna (v. 48) e a divulgação das Boas Novas por toda a região. Era muito justo, afinal, que aquilo que havia levado alegria a Deus no céu trouxesse alegria a seu povo na terra (cp. Lucas 15:7, 10, 23).

 

Notas Adicionais # 34

13:14 / Saindo de Perge, chegaram a Antioquia da Pisídia: Em termos das divisões políticas atuais, esta viagem levou-os de Panfília à província da Galácia. O nome Galácia deriva de Gália; os gauleses invadiram não só a Europa central e ocidental, no quarto e terceiro séculos a.C, como também moveram-se na direção da Ásia Menor que dominaram. No final do século terceiro, foram expulsos das ricas cidades da costa ocidental, por Atalo I, de Pérgamo, indo para os elevados platôs do interior onde, embora não fossem a maioria, obtiveram poderio e dominaram as tribos mais numerosas da Frígia e da Capadócia. Suas principais cidades eram Távio, Pessino e Ancira (Ancara). Durante as guerras civis romanas do primeiro século a.C, o príncipe gaiata Amintas adquiriu um grande domínio que, por favor de Augusto, teve a permissão de reter. O "reino da Galácia" compreendia, além da Galácia propriamente dita, partes da Frígia, Licaônia, Isauria, Pisídia, Panfília e Cilícia ocidental. Em 25 a.C, o reino de Amintas passou para as mãos dos romanos. A administração de alguns dos territórios que Amintas havia adquirido estava sujeito a flutuação (em meados dos anos 40 a Cilícia ocidental, com parte da Licaônia, pertenciam ao reino de Antíoco de Comagene), mas no todo a área do domínio de Amintas compreendia a província romana da Galácia (veja também a nota sobre 2:9s.).

Entrando na sinagoga: a sinagoga na diáspora necessariamente desempe­nhava um papel muito mais importante na vida judaica do que a sinagoga na Judéia. Era o local geral de encontros, o centro da vida comunitária, a escola, a corte, o arquivo, além de ser o ponto de reunião religiosa e culto. Era à sinagoga que Paulo e seus companheiros se dirigiam sempre que chegavam a uma nova cidade (veja a disc. sobre 9:20). E a sinagoga não só provia um ponto conve­niente de contato para os missionários cristãos como também uma congregação preparada para a mensagem. Havia três grupos mais ou menos distintos de pessoas encontráveis ali: judeus de nascimento, prosélitos e devotos (veja a nota sobre 6:5). Estes últimos têm sido chamados de "ponte providenciada por Deus para acesso ao mundo gentio", porque se tratava de um auditório bem informa­do, familiarizado com as Escrituras e com as promessas messiânicas dos judeus,

mas ao mesmo tempo profundamente conscientes de estarem excluídos dessas promessas enquanto permanecessem gentios. Esses devotos tementes a Deus "sempre permaneciam cidadãos de segunda categoria. Os prosélitos eram sepultados em cemitérios judaicos em Jerusalém e Roma e em toda a parte... não, porém, os 'devotos'. Do ponto de vista oficial, a despeito de suas visitas ao culto na sinagoga e observância parcial da lei, os 'devotos' continuavam a ser considerados gentios, a menos que se tornassem judeus de modo completo, mediante a circuncisão e o batismo" (Hengel, Atos, p. 89). Portanto, não é absolutamente de surpreender que, quando se lhes dizia que "a esperança messiânica se tornara viva em Jesus, que no Senhor a antiga distinção entre judeu e gentio havia sido abolida, que as mais completas bênçãos da graça salvadora de Deus ficavam de imediato à disposição tanto de judeus como de gentios", muitos 'devotos' alegremente abraçavam as Boas Novas (Bruce, História, pp. 276s.). Eles formavam o núcleo de muitas das primitivas congre­gações cristãs (ao lado de alguns judeus dispersos), pelo que mediante esses grupos é que a igreja teve acesso ao mundo dos gentios, além dos limites da sinagoga.

13:15/ Depois da lição da lei e dos profetas: Os escritos de Lucas são nossa única base de autoridade quanto à maneira pela qual os cultos da sinagoga eram realizados nesta época (cp. Lucas 4:16). Todavia, se um costume posterior serve de guia, podemos acrescentar ao pouco que Lucas nos relata que o culto se iniciava com o Shema (que se compunha de Deuteronômio 6:4-9; 11:13-21; Números 15:37-41), o qual era seguido de orações (m. Megila 4.3) e duas leituras: uma da lei, e a outra dos profetas. A segunda leitura era comentada expositivamente e dela se extraía uma exortação (cp. Lucas 4:17ss.). O culto se encerrava com uma bênção. Quanto a algumas tentativas para deduzir-se, tendo por base as alusões de Paulo às leituras naqueles dias nas sinagogas, veja Ramsay, Paulo p. 100; J. W. Bowker, "Speeches in Acts; A Study im Proem and Yelam-medenu Form" (Palestras em Atos: Um Estudo sobre Proem e Yelam-medenu", NTS 14 (1967-68), pp. 96-111; e E. E. Ellis, p. 200.

13:33 / Tu és meu filho: Na exposição, adotamos o ponto de vista de que o Salmo 2:7 é citado com referência à ressurreição de Jesus. Não há certeza, contudo, de que seja verdade. Nada diz o texto a respeito de Jesus ser ressusci­tado; fala apenas de ele ser "levantado", sendo possível que a referência seja à sua vinda como o Messias (o mesmo verbo, anistanai, é empregado nesse sentido genérico em 3:22; 7:37; cp. Deuteronômio 18:15). Entretanto, Paulo faz referência a este versículo relacionando-o à ressurreição em Romanos 1:4 (cp. também Hebreus 1:5), o que determinou nossa interpretação da presente passa­gem, considerando que a ressurreição é sempre o ponto central dessa argumen­tação de Paulo, a saber, que Jesus é o Messias. B. Lindars ensina que o Salmo 2:7 foi primeiramente usado pelos cristãos como testemunho da ressurreição, e que sua aplicação a eventos anteriores da vida de Jesus foi um desenvolvimento posterior (pp. 138-44). Argumenta-se às vezes que este versículo deu ensejo à crença de que Jesus havia sido adotado por Deus como Filho, por ocasião da ressurreição, e que só mais tarde os cristãos iriam crer que ele fora o Filho de Deus em sua vida terrena. É mais provável, entretanto, que a convicção anterior dos cristãos de que Jesus era divino fizesse que envidassem esforços na procura de textos como este, e não que os textos dessem forma às suas crenças.

13:39 / E de tudo o que, pela lei de Moisés, não pudestes ser justificados: é digno de nota que a interpretação deste versículo, esboçada na exposição do v. 39 acima, que acabamos rejeitando, corresponde em termos gerais à doutrina judaica da salvação, exceto quanto ao papel de Cristo. Essa doutrina judaica tem um elemento básico: a justiça é determinada pela obediência à lei. Justiça era a conformação à lei; a desobediência era pecado. Todavia, não se esperava obediência perfeita. Os judeus não tinham um conceito de perfeição totalmente isenta de pecado. Reconheciam haver no coração dois impulsos, um bom e outro mau. A pessoa justa era a que alimentava o impulso bom e restringia o mau. Entretanto, devido ao impulso para o mal, sempre havia a possibilidade de a pessoa "cair da glória de Deus", e nesta eventualidade o arrependimento humano e a misericórdia de Deus entravam em ação. Nunca se definiu com clareza no judaísmo o relacionamento existente entre, a misericórdia e a justiça, mas o arrependimento sempre teve grande importância no pensamento judaico; tanto assim que G. F. Moore o chama de "a doutrina judaica da salvação" (Judaísmo, vol. 1, pp. 114, 117, 500). O arrependimento e o perdão formavam um corretivo de qualquer falha nas boas obras dos judeus, mas desde que a pessoa fosse capaz de cumprir a lei não havia a necessidade da graça. Há os que afirmam que essa teria sido essencialmente a doutrina que Paulo estava pregando, exceto que, para o apóstolo, Jesus era agora o foco da graça de Deus e o meio pelo qual tal graça se estendia aos pecadores. Todavia, se Paulo ainda estivesse em dúvida quanto a este ensinamento ou quanto já havia caminhado suficientemente na direção do seu entendimento posterior, pelo qual as exigências da lei estavam longe demais da capacidade dos pecadores, visto que ele fala de coisas que a lei era "incapaz" de justificar. A obra de Jesus não é mera salvaguarda contra algum eventual erro, mas provisão graciosa para os seres humanos que fracassaram.