Sites Grátis no Comunidades.net
Atos 11:19-30
Atos 11:19-30

Atos 11.19-30: A Igreja em Antioquia 

 

Agora Lucas deixa "os atos de Pedro" de lado, por algum tempo. Voltará a eles novamente no capítulo 12, após o que, exceto por uma breve menção no capítulo 15, Pedro desaparece da narrativa, e Paulo torna-se o foco de atenção. O propósito do autor nestes capítulos (8 a 12) é narrar a história da expansão inicial da igreja (exemplificada em certos acontecimentos cuidadosamente selecionados), e ao mesmo tempo pre­parar o caminho para a história da missão paulina. É por isso que Lucas nos dá um relato da conversão de Paulo e da pregação a Cornélio a fim de demonstrar a legitimidade do trabalho que Paulo haveria de executar. Agora, ele nos conta sobre a fundação da igreja em Antioquia, que se tornou a mola mestra do grande impulso missionário para dentro do império romano.

De novo precisamos reconhecer que não sabemos de que maneira os incidentes desta parte do livro relacionam-se entre si no que concerne ao tempo. Lucas dispôs seu material de modo que refletisse a marcha do evangelho para o ocidente, de modo que a história da igreja de Antioquia havia sido deixada de lado até agora, em preparação para o capítulo 13 e os seguintes, os quais nos conduzem de Antioquia à Ásia Menor e mais adiante. Na verdade, porém, a pregação do evangelho nessa cidade pode ter sido contemporânea de alguns acontecimentos narrados nos capítulos 8 a 10, ou talvez houvesse ocorrido antes ainda.

11:19 / Lucas volta à morte de Estevão e suas conseqüências, os crentes espalhados por toda a parte (8:4), e agora acompanha-os na direção do norte, pela Fenícia. Vinte anos mais tarde haveria comunida­des cristãs em Ptolemais, Tiro e Sidom, as quais sem dúvida datavam dessa época (21:3, 7; 27:3; veja a disc. sobre 8:4 quanto ao verbo "caminharam até"). Partindo desses portos, alguns crentes foram para Chipre. Outros, para a Antioquia da Síria. Esta cidade, situada a cerca de 23 quilômetros da foz do rio Orontes, havia sido fundada mais ou menos em 300 a.C, como cidade capital, por Seleuco I Nicator (312-281 a.C), sendo uma das dezesseis cidades às quais ele deu esse mesmo nome em homenagem a seu pai Antíoco. Após o colapso da dinastia dos Selêucidas, e da ocupação romana da Síria, Antioquia tornou-se capital e sede militar da nova província. Sob Augusto e Tibério, e com a ajuda de Herodes o Grande, a cidade cresceu e foi embelezada à maneira romana; melhoraram-se as estradas que lhe davam acesso, e desenvolveu-se mais ainda seu porto marítimo de Selêucia Pieria. Assim foi que o sistema de comunicações de Antioquia com o Leste e, na verdade, com todo o império, tornou-se muito mais rápido e seguro. Tal fato seria benéfico à igreja.

Desde o início essa cidade havia tido população mista que, por esta época, atingia cerca de oitocentas mil pessoas. Calcula-se que o número de judeus chegasse a vinte e cinco mil (veja Josefo, Antigüidades 12.119-124; 2 Macabeus 4). Josefo chamava-a de terceira cidade do império, depois de Roma e Alexandria; outros autores não tinham tanta certeza disso, achando que ela poderia ser a segunda cidade. Tem sido descrita como "uma fortaleza do helenismo em terras siríacas... o ponto de encontro inevitável de dois mundos" (G. Dix, p. 33). Essa mistura de culturas apresentou alguns resultados bons e outros maus. Por um lado, deu origem à literatura e à arte que atraíram os elogios de Cícero (veja Pro Archia 4), mas, por outro lado, fez surgir a luxúria e a imoralidade, que fizeram da Antioquia famosa uma Antioquia infame. Juvenal culpou essa cidade pela desintegração da moralidade romana, dizendo que "as águas do Orontes siríaco se despejaram no Tibre" (Sátiras 3.62). Entre­tanto, essa cidade tinha um papel a desempenhar na história da salvação. É que graças àquela fusão de culturas e raças, o povo estava preparado para a derrubada da "parede de separação, a barreira de inimizade" existente entre judeus e gentios, e novo amálgama de todos num só povo ("de ambos os povos fez um", a saber, "um só corpo" em Cristo; Efésios 2:14ss.)

11:20-21 /De início, os crentes limitavam sua pregação aos judeus (v. 19). Mas em Antioquia, onde o padrão moral que prevalecia levou muitos a procurar algo melhor, os judeus haviam atraído grande número de gentios a suas sinagogas. Muitos destes tornaram-se prosélitos, mas muitos outros (é o que supomos) permaneceram "tementes a Deus" (veja a disc. sobre 6:5s. e as notas), e não demorou muito alguns crentes, irmãos de Chipre e de Cirene, estavam pregando a tais pessoas (é assim que interpretamos o termo gregos do v. 20). Não haviam desistido de pregar aos judeus, mas estavam pregando a judeus e a gentios em congregações mistas. A mensagem deles girava em torno do senhorio de Jesus, pois era mais apropriada àquele povo de origens tão diversificadas, do que a apresentação do Senhor como o Messias (cp. 8:12; 9:20, 22; 18:5), e obtiveram bons resultados. A justaposição de alguns versículos implica em que a expressão grande número creu e se converteu ao Senhor, no v. 21, refere-se em grande parte aos gentios tementes a Deus, do versículo anterior. Isto aconteceu com tão grande facilidade, em comparação com as dificuldades experimentadas no caso de Cornélio, que só podemos atribuí-lo ao fato de os judeus de Antioquia estarem mais acostumados à presença de gentios em suas sinagogas, do que os judeus da Judéia. Seja como for, pela liberdade com que os cristãos conseguiam organizar a vida deles, parece que logo se separaram das sinagogas, de maneira a não ficar sob a mesma pressão externa pela qual os judeus cristãos da Judéia obrigavam os gentios convertidos a submeter-se à lei. Assim é que logo o costume da igreja poderia ser descrito como viver "como os gentios" no que dizia respeito à circuncisão e às leis dietéticas (cp. 15:1; Gálatas 2:11-14). A exatidão dessa nova direção foi aparentemente confirmada, também, em que a mão do Senhor era com eles (v. 21, literalmente; veja a disc. sobre 4:28).

11:22-24 / Quando os crentes de Jerusalém ouviram a respeito dessas novidades, enviaram (apóstolos e os presbíteros? Veja a nota sobre o v. 30) Barnabé a Antioquia para investigar (v. 22). Esta não foi necessa­riamente uma reação hostil. É certo que havia aqueles que achavam que os convertidos gentios precisavam aceitar "o jugo da lei" (veja a disc. sobre 15:10; cp. ll:2s.; 15:1), mas nem todos partilhavam tal opinião, ou não a apregoavam com tanta força. Talvez seja melhor entender o fato de enviarem a Barnabé como sendo uma tentativa de estabelecer um bom relacionamento com os cristãos de Antioquia, da mesma forma que Pedro e João haviam sido enviados aos samaritanos (cp. v. 20).

Ao chegar a Antioquia, Barnabé regozijou-se quando viu a graça de Deus (v. 23; veja a disc. sobre 3:8). O fato de ele "ter visto" pode significar que havia sinais visíveis da bênção —talvez grande mudança no modo de viver, quem sabe a manifestação mais palpável dos dons do Espírito (veja a disc. sobre 8:14ss. e 10:46). Barnabé não encontrou nada ruim em sua fé, nem deficiente em sua instrução, pois nada acrescentou. Apenas exortou a todos a que permanecessem no Senhor com todo o seu coração (v. 23; cp. 15:32), isto é, que continuassem no caminho que haviam iniciado, não permitindo que nada os separasse de Jesus. O tempo imperfeito do verbo "exortar" (ou "encorajar") implica em que Barnabé permaneceu em Antioquia e que ele martelou esse tema enquanto ali esteve. Barnabé é o grande encorajador (4:36), que também provou ser homem de bem (uma descrição singular em Atos) e cheio do Espírito Santo e de fé (v. 24). Essas foram as qualidades que fizeram que Estevão fosse tão eficiente como diácono (6:5), e graças a Deus, Barnabé mostrou a mesma eficiência. Parece que foi por intermédio dele, mais do que de outra pessoa, que muita gente se uniu ("se acrescentava"; cp. 2:47) ao Senhor (v. 24; observe o elo implícito entre a primeira e a segunda metades deste versículo). Parece que Barnabé tornou-se líder da igreja de Antioquia, o que era de esperar-se em conseqüência de sua longa ligação com os apóstolos. Sem dúvida alguma, no devido tempo ele apresentou um relatório à igreja de Jerusalém.

11:25-26a / O crescimento da igreja foi tão grande que logo Barnabé sentiu a necessidade de um assistente, quando então seus pensamentos pousaram em Paulo (cp. 9:27) que, nos últimos anos, andara de cidade em cidade na Síria e na Cilícia, anunciando "a fé que outrora procurava destruir" (Gálatas 1:21ss.). E possível que Barnabé tivesse ouvido algo acerca de Paulo, o suficiente para convencê-lo de que era o homem certo para Antioquia. Tarso ficava a noroeste da capital siríaca, podendo ser alcançada por terra ou por mar. Não foi fácil localizar-lhe o paradeiro. Só depois de demorada busca (informa-nos o termo grego) é que Barnabé encontrou a Paulo, de modo que ambos foram juntos para Antioquia. Nesta cidade ambos trabalharam juntos por todo um ano (v. 26), instruindo a igreja segundo o exemplo dos apóstolos (2:42; cp. Mateus 28:20), até determinado tempo em que a igreja, tendo atingido certo nível de maturidade, enviou-os para a obra mais ampla da "primeira viagem missionária" (13:3ss.). Pode ter acontecido que nesses primeiros meses em Antioquia, Paulo houvesse recebido a primeira visão do verdadeiro escopo de seu chamado para ser apóstolo "para com os gentios" (Gálatas 2:8). O texto grego do versículo 26 não prima pela clareza, embora ECA nos dê uma tradução excelente: se reuniram (Paulo e Barnabé) naquela igreja. Entretanto, várias alternativas têm sido sugeridas, das quais mencionamos uma que nos parece muito atraente: "eles se tornaram unidos naquela igreja", o que enfatiza que a associação de Paulo e Barnabé em Antioquia foi de inestimável valor para a missão da igreja.

11:26b-30 / Lucas observa duas outras questões interessantes nesta seção: Primeira, em Antioquia os discípulos pela primeira vez foram chamados cristãos (v. 26). No Novo Testamento, os cristãos nunca se chamam a si mesmos por este nome; tampouco é provável que o nome cristão lhes tenha sido atribuído pelos judeus. Portanto, deve ter partido de outros da cidade, e é testemunho de a igreja haver forçado sua presença, como grupo de pessoas com identidade própria que lhes chamava a atenção. Talvez não seja mero acidente de linguagem que ambas as declarações do v. 26, a que se refere ao número dos cristãos, e a que menciona seu nome, estejam tão intimamente relacionadas no grego. O substantivo "cristão" deriva do latim, cujos nomes no plural que terminam em iani denotam os partidários da pessoa sob referência; p.e., os herodianos eram os partidários de Herodes Antipas. H. B. Mattingley sugere que o termo christiani foi criado como expressão jocosa pelos cidadãos de Antioquia a fim de ridicularizar os Augustiani, uma brigada de devotos cultuadores que publicamente adulavam aNero. Assim, tanto o entusiasmo dos crentes como a ridícula homenagem prestada pelos bajuladores imperiais eram satirizados nessa comparação ("The Origin of the Name Christian" [Origem do Nome Cristão], JTS 9, 1958, pp. 26ss.). Entretanto, o nome "cristão" pode ser bem mais velho do que a instituição dos Augustiani, o que certamente é plausível, se pensarmos que com essa observação Lucas tinha em mente informar que aquele nome originou-se nessa época. Todavia, persiste a possibilidade de o nome "cristão" ter sido cunhado como zombaria, e teria sido nesse sentido que Agripa II usou-o em 26:28 (cp. 1 Pedro 4:16).

A segunda questão é a provisão feita pela igreja de Antioquia, quando a fome se alastrava, enviando socorro aos irmãos que moravam na Judéia (v. 29). A linguagem de Lucas intenciona mostrar a unidade existente entre os dois grupos de crentes. O profeta Ágabo, que viera de Jerusalém com um grupo de crentes, advertiu os irmãos de Antioquia de que haveria uma grande fome em todo o mundo (v. 28; cp. 24:5; Lucas 2:1). Foi isso mesmo que aconteceu em termos gerais. O reinado de Cláudio (41-54 A.D.) tornou-se notável pela fome que afligiu várias partes do império romano. O primeiro, segundo, quarto, nono e décimo primeiro ano de seu reinado ficaram registrados como anos de fome num ou noutro distrito (veja Suetônio, Cláudio 18; Tácito, Anais 12.43; Dio Cassio, História Romana 60.11; Eusébio, História Eclesiástica 2.8). De acordo com Josefo, a Judéia foi atingida entre 44 e 48 d.C. (Antigüidades 20.49-53). Mas, para a igreja de Antioquia a previsão serviu de aviso. Decidiram os crentes mandar, cada um conforme o que pudesse, uma oferta para a Judéia (v. 29; cp. 1 Coríntios 16:2). O desejo deles era prover socorro aos irmãos; o grego poderia implicar que aqueles cris­tãos enviariam tanto quanto pudessem "para o ministério", lembrando uma expressão similar usada em 6:1, enfatizando que esta oferenda era uma versão em escala maior de uma prática primitiva da igreja (cp. 2:44; 4:32-35; veja também a disc. sobre 20:1 -6). O caso dos cristãos da Judéia talvez fosse muito desesperador naqueles anos de fome, visto que é bem provável que entre os que fugiram daquela região, durante a perseguição, estariam os mais bem qualificados para prover seu próprio sustento noutras regiões. A igreja, pois, teria sido despojada de seus membros mais ricos na época em que a ajuda deles seria mais necessária. Como deveria ter sido bem-vinda aquela ajuda de Antioquia! O dinheiro levantado pela igreja de Antioquia foi entregue por Paulo e Barnabé nas mãos dos anciãos, que aparentemente se tornaram líderes em Jerusalém, tendo Tiago como presidente do conselho (v. 30; veja a disc. sobre 12:17 e as notas; quanto ao sucesso desse empreendimento, cp. o parecer de Paulo em Gálatas 6:6, com os vv. 22 e 27). Esta visita de Paulo a Jerusalém é identificada às vezes com aquela mencionada em Gálatas 2:1-10, mas no todo isto nos parece improvável (veja a disc. sobre 15:1-21). Quando Paulo e Barnabé terminaram essa tarefa, voltaram para o norte, levando consigo João Marcos (12:25).

 

Notas Adicionais #29

11:20 / gregos: Os manuscritos variam entre "helenos", isto é, "gregos", e "helenistas". Em 6:1 e 9:29 ECA traz "gregos", mas "helenistas" tem maior apoio textual, embora "gregos" faça mais sentido. Se a pregação foi dirigida aos helenistas, nada de notável haveria nisso, se esse termo significasse helenistas judeus, uma vez que tanto os pregadores como os ouvintes teriam tido essa mesma formação cultural. Lucas deseja que entendamos ter havido outra divisão, de modo que se "helenistas" é o termo adequado, deve ser tomado como sinônimo prático de "helenos", com o sentido de "gentios de língua grega".

Anunciando o [evangelho do] Senhor Jesus: "Há certo paralelismo intrín­seco entre o desenvolvimento do conceito cristão mais antigo de missão e o desenvolvimento de uma cristologia. Este desenvolvimento paralelo também tem indícios no relato de Lucas. Em Lucas, como também em Paulo, o absoluto ho kyrios ou ho kyrios lesous (Christos), 'o Senhor' ou 'o Senhor Jesus Cristo', de longe é o título mais empregado. Isso corresponde à terminologia da comu­nidade de fala grega fora da Palestina" (Hengel, Atos, pp. 103s.). Isto não significa que o título Senhor dado a Jesus era desconhecido na igreja palestina. Ao contrário, era bem antigo. Há ecos de sua utilização na frase aramaica Maranatha, "Vem Senhor", em 1 Coríntios 16:22 e Apocalipse 22:20. Entre­tanto, talvez não fosse tão usada pela igreja palestina como o era na igreja grega. Isto se reflete acuradamente nos escritos de Lucas; a ocorrência do termo absoluto ho kyrios para Jesus é relativamente pouco freqüente nos primeiros cinco capítulos de Atos, se a compararmos com seu uso generalizado em épocas posteriores (2:36, 47; 5:14; cp. 1:21, "o Senhor Jesus"; em 4:33 o texto é incerto, e numa ou duas citações não se tem certeza sobre que pessoa da Trindade é mencionada, p.e., 1:24). Nos primeiros capítulos, o título com freqüência pertence ao Pai (2:20s., 25, 30; 3:19, 22; 4:26). Indo mais fundo nessa questão, só nesses capítulos iniciais é que encontramos os títulos arcaicos "servo" e "profeta semelhante a Moisés" empregados para designar Jesus (3:13, 26; 4:27, 30; 3:22). É comum também o emprego titular de "Christos" — Messias (2:31, 36; 3:18, 20; 4:26; 5:42; 8:5; 9:22; 17:3; 18:5, 28; 26:23). Outra relíquia dos primitivos dias da igreja é o nome "Filho do homem" (7:56, e veja a disc. sobre 17:31). Mencione-se ainda "o Justo" (3:14; 7:52; 22:14). Conquanto este nome também seja encontrado na literatura posterior da igreja, pode ser considerado outro título primitivo de Jesus, à semelhança de "Autor" e "Príncipe" (3:15; 5:31). Hengel comenta: "Ainda que todas estas alusões cristológicas fossem meramente 'redacionais' é certo que a terminologia não é fortuita; em vez disso, os títulos foram escolhidos com deliberação. Noutras palavras, aqui também Lucas trabalha, pondo em ação o discernimento 'histórico-cristológico' que o caracteriza. Entretanto, é extraordinariamente difícil na verdade distinguir o que é 'redação' do que é 'tradição' em Atos. Negar em princípio a presença de tradições primitivas nos sermões compostos por Lucas, torna-os incompreensí­veis, não sendo essa negativa nada mais que mero palpite" (Atos, p. 104).

11:26 / Em Antioquia os discípulos pela primeira vez foram chamados cristãos: O infinitivo chrematisai pode ser traduzido por "chamaram-se a si mesmos", assim esta passagem pode ser entendida como se o nome "cristão" houvesse sido criado pela igreja a fim de dar expressão à nova consciência de si mesmos. Com este discernimento do termo, B. J. Bickerman chegou à conclusão de que "cristão" significa "escravo de Cristo" ("The Name of Chris-tians" [O Nome dos Cristãos], HTR 42 [1949], pp. 109-24). Mas a evidência do Novo Testamento é que este não era o nome pelo qual os cristãos chamavam-se a si mesmos nesta época, apesar de que na época de Lucas provavelmente já fosse utilizado, dado seu interesse histórico neste lugar onde se originou a palavra "cristão".

11:27/profetas: Se 1 Coríntios serve como guia, era comum encontrar certo número de homens e mulheres em uma congregação local exercendo o dom de profecia (veja 1 Coríntios ll:4s.; 14:29; cp. Atos 13:1). Mas, além destes, existiam outros que exercitavam este dom de forma mais extensiva. Este é o tipo de "profetas" a que se refere este versículo (1 Coríntios 12:28s.; Efésios 4:11; cp. Efésios 2:20; 3:5), e a este grupo pertencia Ágabo e os outros. O papel do profeta era tanto proclamar (cp. 2:18; 19:6; 21:9) como predizer. Ágabo chamou B atenção por suas predições (cp. 21:1 Os.). Capacitados como pregadores, o trabalho dos profetas incluía exortação (15:32), edificação, e consolação (1 Coríntios 14:3). A reação dos não crentes a este ministério mostra que eram pregadores da mensagem completa de Deus (1 Coríntios 14:24s.). No contexto dos cultos da igreja, seu ministério é descrito como "revelação" (1 Coríntios !4:26ss.), de onde podemos concluir que esse fenômeno era uma manifestação espontânea em resposta aos diferentes movimentos do Espírito. Ágabo é usado duas vezes para fazer suas predições "pelo Espírito" (11:28; 21:11; veja disc. em 13:1-3). Diferentemente do dom de línguas, profecia comunicava uma mensagem de maneira inteligível à igreja. Dois testes eram aplicados ao que o profeta dizia: primeiro, a opinião de outros profetas (1 Coríntios 14:29) e, segundo, o kerygma apostólico (estar de acordo com as doutrinas dos apóstolos, veja 1 Coríntios 14:37s.). Profetas, portanto, não eram fontes de novas verdades, pois eram basicamente pregadores e expositores da verdade revelada. Acerca dos ministérios na nova igreja, veja nota em 13:1.

11:28 / O texto do ocidente adiciona a este ponto: "E existia muita alegria. li quando estávamos juntos em comunhão..." incluindo o autor naquele acon­tecimento que estava descrevendo (cp. passagens onde existem o "nós": 16:10-17; 20:5-15; 27:1 -28). Esta passagem reflete a tradição de que Lucas nasceu em Antioquia da Síria; no entanto, esta afirmação pode ser vista como duvidosa.

11:30/anciãos (cf.l4:23; 15:2, 4, 6, 22, 23; 16:4; 20:17; 21:18):Para entender a emergência desta ordem, devemos lembrar que a igreja havia sofrido duas grandes perseguições (assumindo que Antioquia foi formada posteriormente a 44 d.C; 8:lss.; 9:lss.; 12:lss.)- Estas dispersaram um número significativo de cristãos, incluindo, supomos, outros além dos primeiros Sete líderes que in­cluíam Filipe, talvez também os que restaram dos Doze (cp. 12:1, 2 17). De toda maneira, os Doze não queriam envolver-se no dia-a-dia da administração da igreja. Desta maneira a primitiva liderança da igreja em Jerusalém foi dispersa (apesar que de tempos em tempos os apóstolos retornavam à cidade quando importantes decisões deveriam ser tomadas; cp. 15:2ss., talvez também 11:1 e 22), e isto, juntamente com a inclinação natural da igreja de aceitar o costume da sinagoga, talvez apontassem como líderes os anciãos. Este fato abriu prece­dente para que outras igrejas os imitassem (14:23; 20:17). Os anciãos eram às vezes chamados "supervisores" (gr. episkopoi; veja nota em 20:28; cp. Filipen-ses 1:1; 1 Timóteo 3:1 s., Tito 1:7) ou simplesmente "os que presidem sobre vós" (1 Tessalonicenses 5:12). Diferentemente dos judeus, eles costumavam ter um papel espiritual como pastores e professores, assim como administradores (cp. 20:17; 1 Timóteo 5:17; Tiago 5:14; 1 Pedro 5:1-4). E de 1 Timóteo 4:14; 5:22 e 2 Timóteo 1:6 podemos deduzir que estas indicações foram feitas por impo­sição de mãos. Acerca deste assunto, veja adiante a nota em 14:23.